• Camila Fabro

Uma bomba-relógio na cabeça

Independente da idade ou da história de cada sobrevivente de AVC, todos temos o mesmo medo: passar por outro acidente. A sensação é a de ter uma bomba-relógio na cabeça, sem a menor noção de quando ela pode explodir.





Infelizmente, para grande parte de nós, avcistas, a possibilidade de ter outro acidente vascular cerebral é perene, devido a nossos problemas circulatórios. E a tendência é que sejam mais fortes e, consequentemente, ocasionando mais sequelas.

Um método para aliviar esse desespero é descobrir a causa do acidente vascular cerebral, pois geralmente essa é a chave do problema: se prevenirmos a causa do primeiro, mais chances de evitarmos o próximo.


O problema é que nem todo mundo sabe por que teve um AVC, há muitas pessoas que não tiveram sequer acesso a um laudo médico explicando o ocorrido, por isso fica difícil se acalmar e o jeito é conviver com a incerteza. Além disso, o dia a dia é bem pesado porque sofremos com a exclusão social: as pessoas geralmente nos tratam como se estivéssemos com o “pé na cova” e sorrateiramente somos deixados de lado no mercado de trabalho, nas festas sociais e nos nossos sonhos diários. É comum até nos indagarem o motivo de estarmos lutando por um sonho ou investindo em algo para o futuro com tanto afinco, já que temos a saúde prejudicada (como se não estivéssemos consciência disso). Se esse tipo de comentário é dito para pessoas jovens como eu, imagine o que os sobreviventes mais idosos escutam? Não é raro eles se convencerem de que a vida está perto do fim mesmo e desistirem de lutar para simplesmente esperar a morte chegar em um outro AVC ou outra coisa. Assim parece que a bomba-relógio dobra de tamanho, não é mesmo?


Primeiramente, não há como se esquecer de um AVC. A gente se lembra que teve um desde o momento em que acorda porque, dependendo do grau da sequela, levamos um tempinho para levantar da cama, já que não sentimos as pernas (o que é o meu caso); porque a gente vive caindo pela falta de equilíbrio; porque em todo inverno sofremos com a espasticidade que nos entortam braços, pernas e dedos; porque a rotina muda: agora tem exercícios fonológicos e fisioterápicos diários; e porque coisas que antes eram simples como ir ao supermercado, hoje se tornam uma verdadeira odisseia (lá é onde todas as sequelas se reúnem).

A grande questão da nossa vida é como continuar com vontade de viver diante dessas circunstâncias. O que posso dizer é que, se antes eu era forte, agora tenho que ser três vezes mais forte. Nem todos os dias são possíveis, existem aqueles em que nos recusamos a sair da cama. A pressão é constante e não é à toa que muitos sobreviventes têm depressão e que a taxa de “desistências” na nossa comunidade é bem alta. Sabemos de tudo isso e precisamos acordar três vezes mais fortes para começar a nossa rotina porque ela não é fácil, mas também não é impossível.

Voltar a ter independência após uma lesão cerebral exige muito, mas cada detalhe é uma conquista: pegar um copo com o braço sequelado, tomar banho sem passar mal, fazer um café... Se todas essas pequenas coisas são vitórias, imagina o que é escrever um projeto, se dedicar a um esporte ou realizar o sonho da maternidade? Essas grandes coisas para nós é ganhar na loteria. Diariamente ganhar na loteria.


Sem dúvida conviver com a morte nos dá um sabor a mais na vida, e por isso nos unimos, nos incentivamos e nos levantamos em cada tropeço. Porque se é difícil sobreviver a um AVC, continuar a ter vontade de viver depois dele é quase sobre-humano. Hoje sou grata ao aneurisma estourado na cabeça porque o AVC me deu um propósito: nos tornar visíveis e termos mais qualidade de vida. E é por propósitos que cada um de nós continuamos vivendo. E vejo isso em cada sobrevivente que conheço, às vezes mais de um propósito. Conseguimos enfrentar essa luta diária porque essa mesma bomba-relógio que nos dá medo nos enche de coragem. Até parece que esse artefato de lesões escondido em nosso cérebro é feito de absoluta coragem, que nos permite enfrentar diagnósticos e correr atrás de algo muitas vezes esquecido naquela outra vida em que éramos saudáveis: nossos sonhos.

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