• Camila Silveira

TRAVESSIA

Nesta última sexta, que por acaso era uma sexta-feira treze, eu fiz mais uma angiografia cerebral, que é um exame em que colocam um cateter pela minha virilha que vai até o cérebro averiguar se o meu aneurisma (sim, ele ainda existe) está bem preso e aproveitar pra procurar outros. É um exame de controle, eu já fiz dois desses quando estava internada logo após os AVCs, mas não tinha muita consciência na época, desta vez eu tenho.

Na semana passada fiz os exames para o exame: vários de sangue, um eletrocardiograma e uma consulta com o anestesista. E na sexta, as nove e meia da manhã eu fui até o hospital em que quase morri por duas vezes fazer o exame que estava com medo de fazer, tanto pelo procedimento em si como pelo resultado. Cheguei lá, assinei os papéis para a liberação do exame e fui encaminhada por um enfermeiro a um closet onde eu retirei toda a minha roupa para colocar a camisola e as pantufas cirúrgicas. A camisola é totalmente aberta atrás, então não é muito confortável. Fui encaminhada até à sala cirúrgica que por sorte ou azar eu reconheci como sendo o local onde fiz a minha última cirurgia cerebral, aquela do AVC isquêmico em que tinha trinta por cento de chances de sobreviver. Eu não sei como tenho essas memórias tão lúcidas e ao mesmo tempo ter dificuldade para me lembrar de coisas recentes, como por exemplo o que eu comi no almoço. Coisa bem típica da minha nova cabeça desmiolada. Tive que me deitar numa maca bem estreita, onde uma equipe me esperava. Ajeitaram a minha cabeça e me prepararam para me sedar. Lembro que pedi para me furarem do lado esquerdo porque ele é o meu lado sequelado, e eu não o uso tanto quanto o direito.E lá, naquela maca estreita me senti como o menino Riobaldo, do livro “Grande Sertão: Veredas”, atravessando um rio turbulento em uma canoa estreita, sem ter como voltar e ainda por cima não saber nadar. E dentro da minha cabeça, eu me fiz de Diadorim e falei para mim mesma “Carece ter coragem!” e tive raiva, muita raiva de ter um aneurisma na cabeça e ter que passar por este processo, uma vez a cada dois ou cinco anos até o fim da minha vida. Tive raiva da minha solidão e do preconceito que sofro por ter tido essa má sorte. Tive raiva por todos nós sobreviventes de uma vez, porque agora já estavam me furando e eu estava sentindo dor. E tenho raiva quando eu sinto dor. Adormeci e acordei com eles me tirando da mesa cirúrgica, eu já estava nua, já tinham tirado a frágil camisola que me protegia e deslocavam o meu corpo puxando o lençol da mesa cirúrgica. Meu corpo tinha voltado a ser a massa, a simples massa que nossos corpos se tornam no hospital: sem identidade, sem pudor ou autonomia. Senti dor na perna (o catéter entra pela artéria femural) e reclamei disso. Apagão. Acordei embalada na cama da enfermaria. O enfermeiro veio falar comigo. Me sentou e esperamos a tontura passar. Eu teria que tentar comer. Ele trouxe a comida e tentei me virar com as duas mãos, mas daí lembrei da dificuldade em mexer a mão esquerda (é estranho, quando durmo eu esqueço que tenho essas limitações, só as percebo quando acordo) e fui tentar usar o garfo e a faca como eu posso, geralmente esquecendo a existência da faca. Tentei me mexer e a perna direita doía. Uma dor ruim, tipo repuxando algo por dentro. O enfermeiro perguntou se eu queria assistir televisão e pedi para ver os noticiários. Era em torno do meio-dia, e possivelmente iria chover. Sorri da “coincidência” de sempre chover quando estou em apuros e adormeci porque estava muito zonza da anestesia, do contraste, da dor, de sei lá o quê... Acordei umas duas horas depois e agora era uma enfermeira que estava ali, já tinha dado o horário do enfermeiro e ele já tinha ido embora. Ela perguntou se eu queria ir embora e eu respondi que sim. Ela me ajudou a sentar e a tontura veio com tudo. De repente ela estava me ensinando o que já sei: como voltar a andar. A tontura passou e colocamos minhas duas pernas para fora da cama. Havia uma atadura na minha virilha direita, o que prejudicava a mobilidade da minha perna direita, fazendo com que eu precisasse me apoiar mais na minha perna esquerda. Então, ela pediu para eu apoiar a perna esquerda no chão primeiro e eu respondi “A minha sequela é no lado esquerdo, eu não tenho equilíbrio na perna esquerda.” Ela me olhou sem saber o que dizer. Decidi então colocar as duas no chão ao mesmo tempo, devagar. E a dor na perna direita veio com tudo tendo como contraponto a inconstância da perna esquerda. Não estava com paciência. Tinham furado a minha perna boa. Avisei a enfermeira que eu sabia marchar (que é tipo o treinamento para o caminhar) e que iria até o banheiro. Eu fico muito braba quando eu sinto dor, então não era a melhor companhia naquele momento, queria ficar sozinha. Ao me sentar no vaso percebi que ainda tinha sangue do exame no meu corpo, provavelmente da hora em que puxaram o catéter, e fiquei com mais raiva, porque eu estava suja e com dor (definitivamente eu não era a melhor companhia nessas horas, sério, a garota fofa que vos escreve já tinha ido para o espaço). Depois a enfermeira ajudou a me vestir e me colocou na cadeira de rodas onde eu recebi o resultado do exame dizendo que estava tudo bem. Dessa vez estava tudo bem. Então me deram alta e me entregaram para a minha amiga que me aguardava no saguão do hospital. E tudo tinha tecnicamente passado. Tinha chegado ao final de mais um exame doloroso. Estava em “terra firme” e estava começando uma chuva daquelas, porque sempre chove quando estou em apuros. Travessia. #AVCH #angiografiacerebral #aneurisma #AVE #grandesertaoveredas #desmiolada

17 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo