• Camila Fabro

Serviços essenciais

Com o avanço do COVID somente serviços essenciais são liberados, e quem decide isso é o Município e/ou Estado. Em Curitiba, serviços como fisioterapia e terapia ocupacional são considerados essenciais, porém, assim como em muitas outras cidades, os serviços públicos estão com difícil acesso, sobrando apenas as clínicas particulares. Então fica a reflexão: Quanto vale voltar a andar?


Há exatamente um ano atrás, em março de 2020, todos nós estávamos encarando o início do isolamento devido a pandemia do COVID 19. Era uma situação atípica para nós, brasileiros, que por sermos otimistas ou inocentes demais tínhamos algumas ideias falsas a respeito do que estava acontecendo. Uma delas era que a pandemia duraria um mês ou os exatos quarenta dias da “quarentena”. Não foi bem isso que aconteceu, bem se sabe disso.

Outra ideia, esta perpetuada por “declarações extraoficiais”, era de que estamos vivendo e trabalhando confinados em casa para não nos infectarmos com a COVID, mas o motivo era outro: a ideia do isolamento era impedir que muitas pessoas se infectassem ao mesmo tempo e congestionassem as UTIs não deixando vagas para pacientes acometidos por doenças graves, como o AVC.

Mas e as pessoas que sofreram AVC nesse meio tempo? Como estão? Foram socorridas a tempo? Para saber essas respostas eu dei uma de investigadora e conversei com algumas pessoas que passaram por esta experiência em plena pandemia. E sobre isso trago uma notícia boa e outra desanimadora.

A notícia boa é que a maioria dos novos sobreviventes de AVC foram atendidos nos hospitais, sendo que alguns até passaram por cirurgias. É claro que houve aquela negligência de sempre com pacientes mais novos, como no caso de Sandra Alves, moradora da capital paulista, que ao passar mal foi encaminhada ao hospital, liberada ainda na triagem, e só no dia seguinte (ao retornar ao hospital) foi encaminhada à tomografia para então ser diagnosticada com AVC. Mais detalhes? Para quê? Até hoje ela não sabe direito o que aconteceu e realiza um corre-corre em busca da compreensão do seu caso.

Quem teve um pouco mais de sorte foi Júlia Silva, de Belford Roxo – RJ, que ao ser diagnosticada com AVC aos 17 anos de cidade, foi encaminhada para outro hospital por falta de recursos naquele em que pediu socorro, se ela esperou tempo demais ao ponto de agravar as sequelas? Sim, como sempre. Mas, ela foi atendida e está viva (esta é a parte otimista do texto, lembra?). Outro salvamento de tirar o fôlego foi do atleta Cléber Ribeiro, de Salvador - BA, que foi praticar Surfski junto com um grupo de amigos e de repente passou mal e caiu na água, onde teve o AVC em alto-mar. Até chegar ao hospital foi uma força-tarefa de várias pessoas, mas ele foi internado, diagnosticado com AVC, tratado e liberado para casa.

Agora vem a parte preocupante da história: a volta para casa. Isso porque a gente não sai cem por cento do hospital, a gente sai com a saúde estável, ou melhor dizendo, sem o perigo de morrer. A maioria de nós não sai andando porque ainda não reaprendemos a andar - quem nos “ensina” isso é a fisioterapeuta; também saímos usando fraldas porque é muito difícil segurar o xixi - e quem nos “ensina” isso também é a fisioterapeuta. Também há casos em que perdemos a capacidade de engolir e por isso usamos uma sonda nasogástrica (como no meu caso), e não voltamos a engolir do nada - “aprendemos” isso com a fonoaudióloga. O problema é que serviços de fisioterapia e fonoaudiologia não são considerados essenciais em todos os lugares (foi decretado que esse tipo de classificação é decidido por cada Município e/ou Estado durante o isolamento) e o resultado é que nenhuma das pessoas relatadas neste texto receberam tratamento fisioterápico e fonoaudiológico logo que saíram do hospital.

O mais triste disso tudo é que essas pessoas perdem a “fase áurea” da reabilitação, que é logo após o acidente até o limite de aproximadamente um ano. É justamente nessa fase em que recuperamos muito do que perdemos no derrame. E ter assistência terapêutica nessa fase é essencial, sim.

Mas como esses serviços estão sendo ofertados? Como o isolamento ainda está acontecendo, o ideal é que as sessões sejam feitas de maneira individualizada e preventiva (uso de máscara quando possível – o paciente de fono é o único que não precisa usar). Só que “magicamente” esse tipo de serviço só está acontecendo em clínicas particulares. É o que Erika Bennech (de Brasília – DF) se viu obrigada a procurar quando até o serviço fisioterápico homecare lhe foi negado pelo convênio devido à pandemia. Erika tem muita dificuldade para andar desde o seu acidente em março do ano passado, mas luta como pode para recuperar a autonomia do ir e vir. E quanto aos outros tratamentos necessários? Esses vão ficar para depois da pandemia, quem sabe até lá eles poderão ser liberados? Quem tem pouca condição financeira se vira como pode, assistindo vídeos de fisioterapia pós AVC na internet e realizando exercícios repassados nos grupos de apoio. Sim, é isso que está acontecendo neste exato momento.

Com a pandemia as máscaras da nossa sociedade caíram. Hoje temos consciência de quais serviços são verdadeiramente essenciais ao mesmo tempo em que temos cada vez mais consciência do quanto somos egoístas como sociedade. Não estamos infectados somente com a COVID, mas com a hipocrisia e com o ódio, que é tão mortal quanto o vírus, e assim como ele deve ser curado de dentro para fora. Isso também é essencial.

· Este texto contém um pouco das histórias de pessoas que sofreram AVC durante a pandemia. Elas gentilmente me autorizaram a divulgação de suas histórias, bem como de seus nomes.

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