Privilégio

Existem vários tipos e causas de AVCs, e eles atingem pessoas de qualquer tipo de idade, de diferentes gêneros, localidades e classes sociais, sendo que este último fator em si não deixa a doença mais democrática, mas mais problemática. Isso porque ter um AVC ou qualquer outra lesão cerebral é muito caro. E não estou falando apenas da cirurgia em si, da angioplastia ou de um hospital especializado. Vish! Isso é só o começo da história.

Muita gente não sabe, mas a gente chega em casa sem conseguir andar, falar, engolir, de fralda, e com um trauma psicológico no grau master.Nos primeiros dias precisamos de alguém para nos ajudar nos cuidados básicos (tomar banho, escovar os dentes, pentear o cabelo, nos trocar, nos secar, nos ajudar na locomoção e de vez em quando até nos limpar a baba).Muitos de nós contamos com a ajuda da família nesse processo, outros não, e nesse último caso é preciso contratar uma enfermeira ou outro profissional da área de cuidados. E esse profissional, é claro, precisa ser devidamente pago. Além disso, assim que saímos do hospital começamos os processos de recuperação em que vários tratamentos e profissionais entram na nossa agenda, isso porque são várias sequelas, e cada uma delas precisa de um tratamento específico. Quem tem plano de saúde, usa o plano, quem não tem vai pelo SUS (Sistema Único de Saúde) que incrivelmente ajuda milhares de pessoas, mas não dá conta da enorme demanda dos novos avecistas que (graças a Deus) sobrevivem todos os meses em todos os lugares do país. Além disso, corremos contra o tempo, o primeiro ano de AVC é o período em que mais temos chances de recuperar os nossos movimentos e as nossas funções (é o que os especialistas chamam de “período áureo”) e quem não tem a oportunidade de se tratar com um especialista fica em séria desvantagem. Como esses especialistas são caros, os planos dificultam a liberação das guias, e nesses casos o indicado é entrar com uma ordem judicial ou pagar à parte. E a situação é tão crítica que fazemos isso mesmo. Mas quem não tem esse privilégio de raspar a poupança para investir na própria recuperação, faz o quê? Desiste? Meu caro, nenhum avecista desiste de sua recuperação tão fácil. Apenas pensa isso quem nunca perdeu a mobilidade, função ou sensibilidade de uma parte do corpo, porque é desesperador (Acredite). Então, na espera ou na falta de um serviço, procuramos os atendimentos gratuitos nas universidades (o que realmente funciona, após você passar por uma longa fila de espera) ou corremos para internet e lá milagrosamente encontramos vídeos de outros avecistas e especialistas ensinando exercícios de fisio, fono, terapia ocupacional para os menos privilegiados. É o ideal? Não. O ideal seria que cada pessoa tivesse acesso a um tratamento especializado pelo tempo que precisasse. Mas esses vídeos ajudam? Oxe, se não fossem eles muitas das pessoas que eu conheço não estariam andando e se comunicando. (Até eu mesma, aprendi a me vestir com um desses vídeos e sou eternamente grata à pessoa que o postou). Também é importante mencionar a questão emocional. Eu, dentro dos meus privilégios tive e ainda tenho acesso a tratamento psicológico, o que de uma forma salvou essa minha segunda vida. Isso porque eu tinha certeza de que iria morrer antes do final do ano. Sei lá como explicar isso, mas eu sentia isso e agia como se tivesse pouco tempo. Além disso, não gostava dessa minha nova vida em que me sentia isolada de tudo e de todos, em que não conseguia abrir uma garrafa de água, e que sempre era passada para trás econômica e emocionalmente. Sim, muitos avecistas são roubados economicamente, já que é relativamente fácil aproveitar que o nosso cérebro virou uma pasta de amendoim em que a conta dois mais dois não dá quatro, e muitos passam a ter relacionamentos abusivos, porque a gente vem para essa nova vida totalmente vulnerável e com a autoestima lá embaixo. Realmente parece que não há vida após o AVC. Agora, como eu disse, tive ajuda psicológica, mas quem não tem? Como faz? Não faz. Assim como a fisio, a fono, a terapia ocupacional... É por isso que muitas pessoas que tiveram AVC estão em situações precárias enquanto outras aparentam estar bem. O problema não é vontade, mas oportunidade. Nem todos nós temos todo esse apoio e tratamento, mas nos ajudamos diariamente de uma forma muito solidária: quem teve a oportunidade de aprender passa e apoia quem não teve. E eu não estou exagerando não. Acontece assim mesmo. A impressão que dá é que o AVC nos lembra o quanto somos humanos e do verdadeiro valor das nossas relações. Entre nós, somos muito diferentes e pensamos muito diferentes, mas procuramos nos tratar com respeito e cuidado. A gente sabe o que é perder, sabe a dor que isso traz e temos o privilégio de termos uns aos outros, e estarmos vivos para fazer a nossa parte. É...Pensando por este lado realmente somos privilegiados. #AVC #sequela #tratamento #solidariedade #umportodostodosporum #desmiolada


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