• Camila Fabro

O fantasma do sótão

Têm dias em que a raiva é tamanha, que a única coisa que Renata tinha vontade era de gritar, mas como ninguém nunca a ouvia, ela preferia arrastar uma corrente por aqui e ali


A grande maioria das pessoas não gosta de fantasmas, tem gente que até duvida que eles existam, porque se apegam àquela velha imagem dos filmes de horror. Tudo isso porque na verdade fantasmas não são invisíveis, eles apenas não são vistos.

Era uma vez uma linda mulher chamada Renata. Desde criança, ela era super independente e ativa, e quando cresceu, não poderia ser diferente: viajava para todos os lugares, falava diversas línguas e seu trabalho era considerado excepcional. Renata era muito bonita e sempre chamava atenção por onde passava. Extrovertida ao máximo, tinha milhares de amigos. E como todo mundo desse mundinho pós-contemporâneo, dormia todas as noites e acordava todas as manhãs em seu ritmo frenético.

Um dia ela não acordou muito bem, estava zonza e com muita dor de cabeça, mas ignorou o mal-estar e se arrumou para o trabalho. De repente, no meio do expediente, a dor aumentou e ela dormiu. Dormiu durante dias, sem perceber que eles passavam, e acordou zonza e angustiada de seu sono profundo. Ela estava em um quarto branco, e de vez em quando recebia a visita preocupada de amigos e familiares, todavia, eles estavam estranhos: não olhavam diretamente para ela.

Algum tempo depois, Renata foi para o seu antigo quarto de infância, que ficava no sótão da casa de seus pais, já que seu flat (comprado a suadas prestações) havia sido desmontado e vendido, porque ele não era o mais adequado à sua nova situação. Logo após a sua mudança, ela recebeu visitas de muitas pessoas queridas, que lhe davam muita atenção, mas que insistiam em falar dela no passado: quando ela trabalhava, quando ela se divertia, quando ela jogava vôlei. Tudo no passado. Mas ela ainda estava ali, certo? Só tinha caído em um sono profundo e estava se recuperando, assim como a Bela Adormecida. Nada tão grave ao ponto de as pessoas a tratarem desse jeito mórbido, não é mesmo?

Mas o que aconteceu foi bem diferente. Aos poucos as visitas começaram a ser menos recorrentes, até elas cessarem completamente. E tudo estava esquisito até na sua família. No começo, era comum um certo esforço para ela se alimentar na mesa com todos, mas todo o transporte era tão complicado, que foi decidido que era mais cômodo ela se alimentar na cama, em horários diferentes dos das refeições à mesa. Assim, Renata foi se sentindo cada vez mais isolada e esquecida, e ao ver que a vida de todos estava seguindo em frente sem ela, chegou a uma triste constatação: ela tinha morrido naquele sono profundo, e agora era um fantasma.

Vida de fantasma não é fácil: há limitações, dores e um certo apego ao passado. Têm dias em que a raiva é tamanha, que a única coisa que Renata tinha vontade era de gritar, mas como ninguém nunca a ouvia, ela preferia arrastar uma corrente por aqui e ali, interferir na eletricidade e roubar algum doce da geladeira. É o modo que arranjou de se sentir viva de vez em quando. Quem a poderia julgar, não é?

O mais triste nessa história, que no início parecia um conto de fadas, é que, na verdade, ela é de terror: tudo isso porque Renata não morreu, ela apenas teve um AVC muito grave e, aos poucos, foi minimizada e esquecida, ao ponto de sua vida se restringir ao cômodo do sótão e a algumas poucas saídas para as terapias. É assim que vivem muitos sobreviventes, que ao invés de celebrarem a vida reconquistada, acordam e dormem como fantasmas em seus sótãos.

O único modo de libertar Renata é mostrar a ela que não está morta, mas viva: que pode fazer amigos, viajar, ser útil e sair de casa (mesmo com órtese, bengala ou cadeira de rodas). Ela precisa entender que ainda pode fazer várias coisas: cursos, esportes, aventurar-se em situações com as quais nunca sonhou, amar e ser amada, construir uma nova família… Sim, ela pode fazer tudo isso, mas para dar os primeiros passos nessa nova jornada, ela precisará do apoio daqueles que ela ama: seus amigos e familiares. Esse pessoal precisa acreditar que a Renata ainda está ali, mesmo que o seu corpo tenha se modificado, mesmo que a sua fala esteja diferente e seu humor não seja o melhor. Renata ainda está ali com sua inteligência, seu humor sarcástico e seu amor pela vida. Só que poucas pessoas entendem isso. A maioria só se concentra na aparência do corpo machucado de nossa heroína, e a descarta das reuniões por causa das dificuldades impostas por esse mesmo corpo, sem ter empatia pelo que ela está sentindo nesse momento tão difícil da vida. Só que se Renata não se impuser durante os desafios diários, ela não terá forças para sair de seu sótão e voltar a ter autonomia, e por consequência, não terá a chance de voltar a ser feliz: ela se tornará um fantasma na memória de todos, mesmo estando viva.

Atualmente, muitas pessoas passam pela mesma experiência de Renata, sem necessariamente terem sofrido um derrame. O mesmo ocorre com pessoas que nascem ou adquirem alguma deficiência, idosos, LGBTs e todos aqueles que pensam e agem de modo diferente. Aliás, toda família tem um fantasma no sótão, inclusive a sua. Pare e pense. Há anos pessoas incríveis são isoladas apenas por serem diversas e ninguém faz nada a respeito.

Só fui me dar conta disso quando a situação aconteceu comigo e, mesmo tendo várias dificuldades, a maior, sem dúvida, foi a solidão. Foi um árduo caminho para me trazer de volta à vida (ainda está sendo), mas hoje acredito na minha capacidade: sei que tenho muito a contribuir e oferecer. Assim como Renata, sou visível e ainda estou aqui. Todos estamos.

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