• Camila Silveira

O dia em que fui Jerôme Monteé

Era dia. Mais um dia de guerra. Eu e os outros cavaleiros andávamos pela floresta até chegar ao castelo conquistado. No caminho matávamos os desertores e os adversários que tentavam escapar.


A minha tarefa, a de limpeza, era de terminar a carnificina. Geralmente os desertores são jovens que se desapontam com a realidade da linha de frente. Eles são fáceis de pegar porque vem ao nosso encontro. Não sabem que a nossa ordem é matá-los, porque é preciso obedecer, é preciso dar o exemplo. Matar os adversários é mais difícil porque ao contrário dos desertores, eles não merecem. Estão cansados e com fome, eu também estou. Todos estamos. E estes lutam bravamente. Já lutei com um e a pouco tempo lutei com o segundo. Foi uma luta difícil, fui atingido no lado direito da cabeça, mas consegui me levantar, continuar e vencer. Porém, fiquei tão zonzo que tive que me apoiar em uma árvore, senti sua casca grossa e um pouco quebradiça, e pensei por um instante que tudo estava morrendo neste lugar. Eu e outros cavaleiros estávamos chegando perto da batalha, e a cena era de total carnificina. Os nossos meninos, os que não desistiram, usaram a sua raiva para matar e empilhar os meninos do outro feudo. Não gosto do que eu faço, preferiria criar patos. Mas não tive escolha, não tinha isso de escolha. Fui treinado para lutar, era o meu dever lutar. E como a minha cabeça doía. Tentei colocar a mão nela, mas não consegui. O enjoo era arrasador. Alguém percebe que não estou bem, mas digo que estou. No chão e aos arredores só vejo sangue e cabeças, miolos. Apesar de estar acostumado com esta cena, ela deixa a minha dor de cabeça ainda mais forte. Preciso descansar. Não confio nos outros, mas preciso descansar. Alinho a minha coluna na velha árvore e coloco a minha espada no lado esquerdo do meu corpo. Fecho e os olhos e procuro me concentrar no cheiro das folhas. Imagino uma luz branca e duas garotas me olhando, uma é morena como eu e a outra é bem loira. Elas estão preocupadas e se referem a mim como uma mulher. Sorrio, uma delas, a loira, conversa comigo num tom angelical. Tento me mexer e elas não deixam. A visão é boa. É calma. Quero continuar nela e converso com a loira, ela quer saber o que estou segurando, respondo que é a espada. Olho e percebo que nessa espécie de sonho meu corpo é pequenino e está envolta de uma camisola clara. Elas estão falando comigo pensando que sou a menina da camisola. Talvez seja porque assim como a menina estou cansado, e estou começando a pensar que nunca criarei patos, que nunca deixarei a guerra, e isso tudo é um alívio. Há tubos em toda a parte e um barulho infernal vindo de uma pequena caixa. Não é à toa que a menina está amedrontada, eu também estou. As moças gentis vão embora. E tudo que eu ouço são as pessoas conversando como se nem eu e nem a menina estivéssemos ali. Levanto e deixo a menina dormindo, vou até um pequeno galpão frio em que uma mulher com desenhos no braço olha para outra caixa com imagens estranhas. Na caixa sai um som dizendo que um cantor morreu. Que ele estava numa catapulta de aço e que seu corpo ainda não foi encontrado numa montanha. Eu nunca gostei de catapultas. Voar é para pássaros, não para homem. A menina ri e diz que gosta de voar. Volto para o seu galpão branco e a vejo imobilizada. Ela tem a cabeça enfaixada, com um cano pequeno saindo de sua cabeça. Exatamente no lugar onde está sangrando a minha. Deve ser por isso que estou aqui. Pergunto se ela conhece o homem que voou na catapulta de aço. Ela diz que não e adormece enquanto eu acordo. Estou na torre, meus companheiros me trouxeram para cá e aqui o sol é forte. Não gosto de quente, mas a voz da garota dentro da minha cabeça diz que gosta. Estranho. Ainda ouço a voz da garota da visão. Pergunto da minha espada e a me devolvem. Fico furioso por a tirarem de mim, mas dizem que foi preciso, que o corte da minha cabeça foi profundo. O meu também, diz a garota... “Disseram que eu tive um AVC”. Estou enjoado. Há muito sangue no meu rosto, o cabelo está encharcado de sangue e estou tonto. Caio no chão e esticam as minhas pernas. Mandam chamar um padre da aldeia próxima, a que passamos a noite. Sim, ver um padre seria bom, principalmente porque a garota do sonho está me perturbando. Ela fala de bichos, lugares que eu não entendo. Por Deus, ela não para de falar, e isso me irrita...Eu sei que ela está morrendo, e eu também estou. Incrível, mas neste momento estou tão confuso que não sei se amo ou odeio patos. Me vem um sono profundo e estou de volta ao galpão branco da garota, duas mulheres me olham e sorriem. Uma é mais velha e parecida com a garota. Elas me falam de algo chamado delírium. Dizem que eu não existo, mas que a garota existe, que toda a minha existência é uma mentira, uma imaginação da menina. Que bobagem, a garota é só um sonho... Como ela pode existir e eu não¿ Mas estou tão cansado que aceito, sem falar nada. Que seja, mulheres inventam demais. Mas se for para morrer, eu prefiro continuar aqui. #luta #delirio #AVC #AVCH


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