• Camila Silveira

Lute como uma avecista

Lute como uma avecista se você teve um AVC aos oito, dezoito, trinta e quatro ou oitenta e oito anos. Lute independentemente da idade em que foi atingida pela roleta russa neural que revirou a sua vida de cabeça para baixo e fez com que todos os seus planos e sonhos fossem mudados. Lute como quem teve que se adaptar a uma nova realidade e de repente descobriu que agora nenhum desafio é inatingível.

Lute como uma avecista porque você nasceu mulher, e desde o primeiro suspiro luta por amor, igualdade e empatia. Porque você nunca desistiu de ir à fisioterapia, apesar da dificuldade em andar, e nunca desistiu de reencontrar a sua voz ao enfrentar todos os dias o monstro da afasia. Lute porque você ainda vê no espelho como o seu corpo mudou, e que agora a mão não abre, o pé não encosta inteiramente no chão e que, aos poucos, suas deficiências estão se tornando oficialmente físicas. Lute, porque quando uma avecista luta, ela dá forças para todas aquelas que estão na mesma situação. A sororidade impera na vida pós-AVC.

Lute como uma avecista porque seu amor de repente foi embora, e quando você mais precisou que as promessas fossem cumpridas, ele simplesmente não estava mais lá. E mesmo com dor e sozinha, você continuou lutando porque não havia outro caminho a não ser seguir em frente. Lute como quem mesmo com o coração partido encontrou o amor próprio.

Lute como uma avecista com a mesma garra com que pesquisou no computador palavras como “neogênese” e “neuroplasticidade” procurando caminhos e respostas para a sua recuperação. E que mesmo perante a dor diante da última tomografia, e mesmo sabendo que havia limites físicos e traumas mentais, acreditou ainda mais. Lute como quem ao cair no abismo precisou renascer de todas as formas inimagináveis para manter-se em pé.

Lute como uma avecista como quando tomou coragem e decidiu tirar o pijama e voltar a usar suas antigas roupas, sapatos e maquiagens e enfrentou aquele velho pensamento de que nunca mais iria voltar a usá-las. Lute como quem precisou se ver por dentro para voltar a ter vaidade.

Lute como uma avecista até nos seus piores dias, em que a única vontade é chorar. Pois sua força está até em suas lágrimas que magicamente te dão força a cada novo dia. E assim você vai lutando, ser ter ideia de quão admirável você já é. Lute como a Ana, a Vanessa e a Camila, como a Andrea, a Valéria e a Cíntia, a Alessandra, a Vivian e a Clara, como a Aline, a Violeta e a Carolina. Lute como milhares de mulheres que se tornam avecistas todos os anos e bravamente enfrentam esse mundo de rounds diários.

Lute como uma avecista e honre a sua história, pois você teve sim, um ou vários AVCs, mas isso não foi suficiente para acabar com a sua vida, porque você é maior que um AVC. Lute como quem descobriu a sua grandeza justamente quando se deparou com o pior trauma de sua vida. Orgulhe-se de sua existência! Lute como uma avecista.

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