• Camila Silveira

Família

Estava longe, muito longe. Aos quatro meses pós-AVC eu viajei sozinha para um lugar muito longe, porque estava triste e me sentia muito só. Isolamento mesmo. Toda noite eu me debruçava na varanda e chorava olhando para o céu. O céu mais bonito que vi em todas as minhas vidas. Numa dessas noites, Canela apareceu.

Canela era uma moça de vinte e poucos anos que estava viajando com o namorado pelo Brasil. Ela era pequenina e estrangeira e como percebeu que eu estava só começou a puxar papo. Frivolidades. Deve ter me achado uma moça triste que estava em viagem sozinha, quem sabe um divórcio ou um acidente. Acidente! Poderia ser este o motivo da bengala. Nos dias seguintes, ela ou o namorado me ajudavam com as escadas do hotel. Acho que um dia antes de eu ir embora, Canela estava chorando muito. Antes eu era boa em consolar as pessoas, mas eu não sabia como agir naquele momento. Eu estava muito machucada para consolar alguém. Aos poucos, Canela foi se aproximando, sentou-se na minha frente e me perguntou se eu tinha tido um AVC. Fiquei muito assustada, não queria falar sobre isso, não porque eu ficaria desconfortável, mas porque o assunto causava desconforto nas pessoas. Os amigos reclamavam que eu só falava disso e foram se afastando até que eu ficasse sozinha. Eu estava sozinha. Só desabafava nas redes sociais, e mesmo assim as pessoas se confundiam achando que eu estava me fazendo de coitada. Como não queria perder a recém amizade com Canela, disse a ela que não queria falar sobre o assunto. Mas ela insistiu: “Por favor, minha irmã teve um AVC. Soube agora de tarde, ela teve uma hemorragia cerebral e está numa UTI. Era um caso de AVC neonatal, eu sabia dessa possibilidade porque havia esbarrado no assunto nas minhas pesquisas para entender o que tinha acontecido comigo. Fiquei triste por ver minha amiga chorando, então contei a ela que provavelmente sua irmã tinha tido um AVC hemorrágico, que é quando há um rompimento de uma artéria no cérebro. Nesses casos geralmente fazem uma cirurgia e colocam um dreno. Canela me confirmou que sua irmã estava com um dreno. Eu disse que eu também tive um e mostrei as cicatrizes na minha cabeça. Ela pediu para tocar no afundamento causado pelo dreno no osso do meu crânio e eu deixei. Ela fez mil perguntas e respondi todas. Tive receio de dar falsas esperanças, e falei mil vezes que não era médica, que cada caso é um caso e essas frases que todo paciente de lesão cerebral se cansa de falar e ouvir. Mas ela ficou feliz com as respostas, de certo modo ficou mais tranquila. Perguntou se a minha mão era fechada por causa dos AVCs e eu disse que sim, mas que ela estava abrindo com os exercícios e mostrei um deles para ela. Expliquei da neuroplasticidade, que era devido a ela que eu voltei a andar. E falei da UTI, de tudo que eu achava importante e do que eu senti falta. Falei que era importante ter visitas, e que as visitas lembrassem de momentos bons vividos ao lado da pessoa enferma, porque na hora é tanta confusão mental que a gente meio que se esquece de quem é. Também falei para sempre contarem a verdade para irmã dela, que por mais triste e assustador que pareça, o AVC fazia parte da história dela. Era importante. Depois dessa conversa mexi no celular e comecei a responder as mensagens de familiares de pessoas que tiveram AVC, outrora ignoradas, porque Canela me mostrou que de alguma maneira a minha experiência poderia ser útil para essas famílias. E assim conheci a Camila, a Miriam, a Ramona, a Jayne...Familiares de avecistas que de alguma forma fizeram parte da minha recuperação. A família também sofre porque quando temos o AVC parece que se forma um muro entre nós e as pessoas que amamos. A linguagem se torna difícil. As emoções também. Tudo é lento e doloroso, poucos têm paciência. É complicado. O AVC me trouxe muitas mágoas, mas também me ensinou que ao compartilhar a minha história com os familiares de outros avecistas a gente ameniza um pouco a dor deles e torna um pouco mais confortável a situação daqueles que estão onde um dia estivemos. Além disso, comecei a entender a perspectiva de quem ficou do outro lado do muro, e a entender que não estava realmente sozinha, era a lesão cerebral que nos separava. Depois do AVC todos nós nos procuramos em diversos grupos de apoio, e de um jeito muito louco nos tornamos uma grande família também. A dor nos une de uma forma humana, nos entendemos em nossas coragens e fragilidades. Somos uma grande família formada pelo AVC.

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Crédito de imagem: <a href="https://br.freepik.com/fotos-vetores-gratis/amor">Amor foto criado por freepik - br.freepik.com</a>

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