• Camila Silveira

Eu, PCD

Era sábado. Encontrei uma amiga em frente a um famoso espaço de música erudita daqui de Curitiba para assistir um concerto de graça. Depois fomos para um bar que eu gosto muito e estava tendo uma apresentação de música nordestina. Bebemos, dançamos e fomos para outro bar, onde jogamos sinuca. Na volta para casa passamos numa padaria e compramos pão de queijo fresquinho. Essa foi a última vez em que me lembro de ter saído de casa no meu corpo antigo.

Pode parecer meio maluco, mas meus finais de semana eram assim: cheios de compromissos. Eu sempre fui enérgica, sempre trabalhei e estudei. Não fiz uma, mas cinco línguas diferentes, todas com bolsa. Não fiz uma, mas três faculdades, duas com bolsa. E estava na minha terceira pós quando tive os AVCs. Era uma profissional multifuncional; tinha uma ideia atrás de outra e me adaptava fácil às diversas circunstâncias. Mas tudo mudou numa madrugada fria em que tive um AVC transitório, e dias depois um hemorrágico, e por fim, um isquêmico, tudo em maio de 2019.

O AVC transitório não me imobilizou, mas me impossibilitou de sair de casa porque meu corpo doía muito, principalmente a cabeça. Na época, eu pedi para uma amiga me levar ao hospital e fui diagnosticada como “provável caso de meningite” e comecei a tomar remédio para o possível tratamento. Remédio que não conseguiu impedir a ruptura de um aneurisma quatro dias depois, dando início ao diagnóstico correto de AVC.

Depois da alta do hospital foram dias estranhos. A impressão que me dava era de que eu tinha ficado doente, mas que logo sararia. Acho que todos os meus amigos também tinham essa mesma impressão porque eu recuperei o andar e a fala meio que rapidamente, é claro, tinha alguns problemas no caminhar, na conjugação verbo-nominal, na memória e a mão esquerda fechada, mas o que era tudo isso para quem sobreviveu a duas cirurgias cerebrais, não é mesmo? Com certeza eu recuperaria tudo de novo. Mas não foi bem assim. Aos poucos eu fui percebendo que o “buraco era mais embaixo”, na dificuldade de amarrar o sapato, em manusear talheres, em escrever e calcular. Pode parecer inocente hoje, mas na época do hospital ninguém me disse que os derrames tinham me tornado uma pessoa com deficiência, então eu não tinha assimilado minhas limitações como permanentes. Eu me lembro de terem comentado sobre a minha visão, mas eu não tinha me tocado que não enxergava na região periférica esquerda. Era tudo muito básico na minha cabeça: se eu enxergava com o olho esquerdo, não tinha ficado parcialmente cega. E o resto eu iria recuperar: tudo ao seu tempo.

Mas como já disse, não foi bem assim: para me vestir foi difícil, para tomar banho sem passar mal (minha pressão varia muito durante o banho) era uma missão impossível, e para escrever foi uma luta (para você ter uma ideia, só consegui fazer a letra L discursiva com quase dez meses após os acidentes, antes eu desenhava um alpha). Também teve um tempo em que eu escrevia os verbos por último na frase, porque confundia a escrita portuguesa com a estrutura linguística alemã. Minha lesão me afetou cognitivamente, e como eu sabia muita coisa, as memórias se misturavam com facilidade. Lembro de um almoço com a família de um amigo em que eu falei regras gramaticais em tom de conversa informal. Ninguém sabia o porquê de eu estar dizendo aquilo tão fora de contexto, mas a informação simplesmente reaparecia na minha mente do nada e eu a dizia em voz alta para descobrir qual memória estava sendo despejada pelo cérebro, porque eu mesma não tinha noção do que eu iria dizer. Aliás, minha memória, antes invejável, ficou péssima, ao ponto de eu não me lembrar coisas básicas, como se tinha passado manteiga no pão.

As pessoas próximas a mim não estavam preparadas para essas limitações persistentes. A ficha não caía, nem para mim, nem para elas, que não compreendiam a minha dificuldade em ir para a rua sozinha. Eu me perdia com muita facilidade, andava com dificuldade e não sabia contar dinheiro. Supermercado era muito complicado porque além de tudo eu tenho dificuldade para identificar objetos. Então, tentava comprar alguma coisa e acabava comprando outra.

No começo eu não falava sobre isso porque realmente achava que iria melhorar, que era apenas uma fase. Não era. E depois, quando comecei a relatar, comecei a ser chamada de “carente”, “preguiçosa” e “dependente”. Sim, a mesma guria descrita no começo do texto foi adjetivada de “preguiçosa”. Ao chorar pelas dificuldades da minha nova vida virei a “carente” e por pedir ajuda era chamada de “dependente”. Então parei de falar, parei de pedir ajuda, porque ser tratada assim era pior do que qualquer coisa. E assim, mediante as dificuldades, eu fui preferindo ficar em casa ao invés de sair para a rua. A hostilidade não veio apenas das pessoas próximas cansadas de ouvir as minhas reclamações, mas também de desconhecidos: por eu andar devagar, por me confundir com coisas básicas... E toda impaciência alheia me causava imensa dor.

Até que um dia, por uma questão contratual fui enviada para um exame mais específico e fui diagnosticada com deficiência múltipla. Pode parecer estranho, mas para mim foi um alívio. O problema não era eu, não era preguiçosa, ingrata, dependente... Só estava tentando me adaptar como podia em um novo corpo. Não tinha nada errado comigo. A constatação de PCD veio para mim como uma chave para uma nova vida. Com ela comecei a me informar, aprender sobre direitos e capacitismo e a compreender minhas tonturas e desequilíbrios. E aos poucos vou me adaptando à sociedade, tanto ao usar o banheiro específico como ao chamar uma pessoa que está sendo rude comigo devido a minha limitação de preconceituosa. Estou me empoderando e me acolhendo e finalmente vou tendo orgulho da minha trajetória. Claro que cada caso é um caso, e o meu jeito de lidar com isso tudo é diferente do de outra pessoa que adquiriu uma deficiência. Cada caso é único, assim como cada história. Não dá para comparar. Hoje dou mais valor as minhas vitórias, como conseguir desenhar o L, não me confundir com números e dar uma parada estratégica para me esticar e recuperar o fôlego durante o dia. Hoje tenho orgulho do meu mancar porque hoje, para mim, ele representa a minha vitória e não a minha limitação. E desejo que cada sobrevivente sinta o mesmo um dia, porque é libertador. E espero estar cada dia melhor me aceitando como eu sou, por dentro e por fora. #desmiolada #PCD #empoderamento #aceitacao #AVC

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