• Camila Fabro

Ela era divina



Foi uma madrugada intensa, em que a cabeça quase explodiu de tanta dor. Eu não tinha mais dimensão de tempo e espaço desde a cirurgia, mas sabia que estava sendo direcionada à sala do meu médico neurocirurgião. Eu já tinha dificuldade para reconhecer rostos, mas sabia que aquele era o meu médico. "Bom dia, Camila. Como passou a noite?" Eu tinha tido uma noite péssima por causa da dor. Ele me explicou que infelizmente meu cérebro desenvolveu vasosespasmos, um problema decorrente da primeira cirurgia, que apesar de ser mais ou menos esperado era grave, muito grave, sem uma cirurgia de emergência eu poderia ter 23, 14 ou sete horas de vida porque eu estava tendo um AVC isquêmico. "Sete horas de vida? Que horas são?" Eram sete e quinze da manhã. "Então, eu posso morrer logo após o almoço?" Aceitei fazer a cirurgia sem pestanejar. Mas não tinha ideia de quando ela seria, nem se sobreviveria a ela, pois só havia trinta por cento de chance de sobrevivência, sem contar as sequelas. Eu saí da sala atordoada. O que eu iria fazer? Como ter coragem para esperar a morte desse jeito? Eu não poderia sair de lá. Não poderia ver os meus amigos. Meus amigos eram a minha fonte de coragem, o que eu iria fazer sem eles? Não sei como eu fui parar numa sala em que a Divina Diva estava. Divina Diva era a enfermeira que eu mais me identificava. (Na verdade o apelido dela é Diva. Mas ela me fazia tão bem que pedi licença poética e acrescentei o ""divina" ao seu nome). Expliquei para ela da consulta. Eu estava desesperada. Eu disse que tinha aceito a segunda cirurgia, que eu iria lutar de tudo o que é forma para sobreviver, mas se eu não conseguisse, não era para ela ficar triste não. Estaria tudo bem. Divina diva me abraçou com os braços de todos os meus amigos. Eu estava certa. Realmente ela era Divina.

#desmiolada #enfermagem #AVC #emergência #Divina #amizade

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