• Camila Silveira

Dois cafés

Atualizado: 23 de Mai de 2020

O encontro funciona da seguinte maneira: a gente se conhece em algum grupo, conversa durante horas ou apenas alguns minutos, marca um local, mostra a foto atual e diz com que roupa vai estar.

Eu geralmente sugiro em algum café, gosto muito do ambiente íntimo que um café com pão oferece, coisa de família italiana. Às vezes o café é na casa da pessoa, então eu tento passar numa padaria antes para levar algum quitute, mas outras vezes não consigo me adequar ao horário e vou de mãos abanando (meus antecedentes italianos que me perdoem). Antes de ver a pessoa ao vivo me vem um frio na barriga, tento averiguar se não estou descabelada e se a roupa não está torta (depois do acidente, tenho tendência a desalinhar o lado esquerdo quando eu me visto). A maioria das vezes a pessoa está acompanhada da família, enquanto eu, corajosa como sempre, vou sozinha. Mas sempre que a vejo ao vivo e a cores, a acho fantástica, linda. Nunca há decepção. Porque é o encontro de dois sobreviventes, e isso sempre é encantador. A gente se abraça (não havia covid na época dos meus primeiros encontros presenciais), procura o lugar mais confortável para sentar e o primeiro assunto é o maior trauma da nossa vida. O café é quente como a nova amizade e amargo como foi o trecho em que nossas vidas se cruzaram. A gente se ouve, mesmo já sabendo a história, porque a gente sabe que para quem conta, muitas vezes é a reconstrução mental do que ainda não foi entendido pelo corpo ou pela alma. Não tem problema falar muito ou pouco, porque o que interessa é o que a vida nos colocou junto. Só isso interessa. Não há algo que mais une do que quase morrer em um acidente vascular cerebral, conviver com as sequelas e sentir a terrível solidão pós-AVC. Mesmo com tantas diferenças de ideologias, credos, escolaridade, planos, times de futebol e partido político (lembrando que estamos no Brasil de 2020), nada disso importa no primeiro encontro de dois avecistas, porque naquele instante só o interlocutor tem a empatia necessária para entender o que está sendo dito. E isso traz conforto e alegria. Detalhes são contados, falamos de sentimentos, de nossos vazios. Às vezes as lágrimas vêm, e aproveito para averiguar se o lado esquerdo do meu queixo não está sujo, por causa da disfagia. A conversa rola solta e com alguns trechos animados, porque sofrer de uma lesão cerebral tem lá seus momentos inusitados (como quando eu levei para o meu médico neurologista o raio X do meu gato ao invés da minha última tomografia). Também falamos de remédios, tratamentos, e dificuldades, muitas dificuldades. Viver com sequelas é muito difícil, mas traz encontros como estes. Encontros de almas. Nesse momento somos privilegiados. Na minha outra vida não havia situações assim. Eu tinha vários amigos (ainda tenho alguns), mas a amizade se desenrolava em meses, anos, envolta a tantos assuntos triviais, muitos dos quais hoje considero fúteis. Naquela época a minha maior sequela era viver a vida com superficialidade, era querer o inalcançável, era julgar tudo e a todos. Hoje eu tenho o privilégio de ter primeiros encontros verdadeiros com pessoas verdadeiras, onde medos e desejos são contados, e que empatia e sensibilidade são atitudes normais. Parece até que o AVC nos tira a “casca”, e temos mais facilidade de nos mostrarmos como realmente somos. Aliás, nós (sobreviventes) continuamos sendo as mesmas pessoas, e com o tempo podemos nos distanciar devido a nossas diferenças, assim como acontece com todo mundo. Mas no primeiro encontro, o vínculo pós-traumático nos une de tal forma que o abraço de despedida é sempre verdadeiro. Na vida pós-AVC, tudo se transforma em outra realidade, tem o lado difícil em todas as perspectivas, mas a perda dessa nossa “casca” faz com que os nossos laços sejam mais genuínos, e mais fortes. #AVC #amizade #café #strokesurvivor


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