• Camila Silveira

Disfagia

Nos primeiros dias da minha nova vida, meu tio e um grande amigo dos tempos de faculdade vieram me visitar. Aquilo parecia um sonho. Eu não sabia onde estava e o local parecia ser verde claro, sem profundidade. Eu demorei para identificar locais, somente meses depois do AVC consegui ter ideia de onde estava. E isso até hoje é constante, vira e mexe não sei onde estou. O mundo se tornou diferente para mim, as distâncias se tornaram muito subjetivas.

Mas vamos voltar para a UTI onde meu tio e meu amigo estavam conversando comigo num fundo chroma-key em tom pastel. Meu amigo estava assustado com o dreno saindo da minha cabeça. Eu achava que era sonho e respondia as suas perguntas. “Como era a famosa morfina?” “Maravilhosa! A gente até esquece a dor do pé na bunda que levamos no jardim da infância”. Risos. “Esse dreno está tirando o líquor da minha cabeça, sabia que o líquor era dessa cor? Meio colorido? Deve ser por isso que eu sou criativa. Dentro da minha cabeça tudo é colorido”. O sonho estava muito confuso e meu tio estava com vontade de chorar. Eu estava com náusea para me virar para vê-lo melhor. Eu não conseguia ficar sentada sozinha, alguém estava me apoiando. Eu estava enjoada para comer e não conseguia acordar. Pedi água. Me deram um copinho de plástico com canudinho. Eu não queria o canudinho porque eles são jogados fora e matam as tartaruguinhas no mar, mas nesses sonhos me enfiavam eles na boca. Fazer o quê. Tentei puxar a água e ela se prendeu na garganta. Sufocou-me. Eu estava me afogando e tentei pedir ajuda. Estava desesperada porque eu não conseguia respirar. Gritei para o técnico que me acompanhava na UTI, mas naquele momento não sabia que ele era um técnico de enfermagem, nem que eu estava no hospital. Só sabia que ele era recorrente nos meus sonhos, um anjo tatuado que me ajudava. O homem me ouviu e foi me acudir, ele disse que a visita estava encerrada. “Visita? Que visita?” O meu tio e amigo foram ficando para trás, eles me deitaram de lado e colocaram um tubo na minha boca que aspirou a água. Eu não tinha forças nem para tossir. Foi colocado outro tubo em meu nariz. Que sonho horrível. Mas o tubo não doía, incomodava. Depois vieram outros sonhos, mais lúcidos, em que me ensinavam a comer e engolir. “Camila, dessa vez você se superou na desgraça, hein?” – pensava comigo mesma. Mas obedecia. Fazer o quê. Todo mundo era bravo comigo, menos o cara tatuado. Engolir doía. Era como se o esôfago estivesse estreito. Eu engolia e babava. “Era o fundo do poço mesmo.” E então, tiraram o tubinho do nariz e vieram as comidas líquidas. Um horror. Era comida mesmo, não purê de batata. Era tipo frango liquidificado, torta de atum liquidificado, bife a rolê em pasta. E algo doce que ia bem. Eu só queria o doce, o resto era uma tortura. “Como que querem que eu volte a engolir comendo uma lástima dessas?” Uma moça, Maria Carolina, me disse que era necessário tentar comer, para recuperar a capacidade de engolir. Então, eu fui tentando me lembrar como é que se comia. “Não tinha os dentes para mastigar?” A moça me falava que sim, que era para mastigar a pasta e engolir. Como se fosse comida, engolir devagar com a cabeça abaixada. Eu fazia o processo, com muita gente envolta. Quando eu engolia, eles vibravam como gol no futebol. E assim, eu fui me recuperando do AVC hemorrágico. Voltei a comer e a andar. Então, veio o segundo, o isquêmico, que para mim foi o pior porque eu sabia que estava na UTI, eu sabia que estava morrendo. E tudo voltou do zero. A parte esquerda do corpo ficou mole, voltei para a cadeira de rodas, e o tubo foi inserido no meu nariz de novo. Eu me sentia como as tartaruguinhas do mar que sempre quis ajudar. Era muito injusto! E mais uma vez vieram as terríveis pastinhas. E mais uma vez todo o processo, e então me falaram que eu tinha disfagia. Disfagia é quando a gente tem dificuldade para engolir. Muitas pessoas com lesões no lado direito do cérebro, assim como eu, tem disfagia. E muitas pessoas que têm lesões no lado esquerdo tem afasia, que é a dificuldade na linguagem. Os dois são sequelas horríveis. Eu tive muita sorte, muita sorte mesmo, nos dois acidentes voltei a engolir poucos dias depois, mas existem avecistas que até hoje tem um tubo acoplados diretamente no estômago. Sequela terrível essa tal de disfagia. É como se afogar na própria saliva. E demora para a gente pegar o jeito de volta. Vish! É preciso de muito esforço e tratamento para se livrar do mesmo destino das pobres tartaruguinhas para enfim nadar livre no oceano.

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