• Camila Fabro

Corrida com obstáculos

Estima-se que uma a cada quatro pessoas terá um AVC em sua vida. E quando nós jovens somos acometidos por um, passamos por dois grandes obstáculos na nossa luta pela sobrevivência: alguém identificar que precisamos ser levados ao hospital com urgência e, chegando lá, acreditarem nos nossos sintomas na hora da triagem.


Camila Silva tinha 33 anos e estava no meio de um bloquinho de carnaval, em Belo Horizonte - MG, com o seu namorado, quando começou a passar mal. Sentiu-se tonta e deixou cair o seu primeiro copo de cerveja no chão e junto com isso todo o seu lado direito perdeu a força. Nervosa, tentou pedir por socorro: percebeu que não conseguia falar. As palavras simplesmente não saíam: ela tinha acabado de sofrer um AVC intenso, e não sabia disso. Por sorte (ou destino) o namorado dela era guarda municipal, reconheceu os sintomas e a encaminhou urgentemente ao hospital, salvando a sua vida. Por incrível que pareça Camila teve sorte naquele dia porque logo que teve o seu acidente, estava ao lado de uma pessoa que o identificou e assim conseguiu passar pela primeiro grande obstáculo de quem tem AVC jovem: alguém identificar que precisava de socorro hospitalar o mais rápido possível.

Eu não tive essa rapidez na identificação do meu, tive o AVC em casa, sozinha, e mesmo com uma dor de cabeça terrível consegui pedir ajuda num grupo de whatsapp. Uma amiga chegou quatro horas depois e chamou o SAMU. O pessoal veio, me pré-diagnosticou como uma possível overdose e foi embora. Sim, o SAMU foi embora porque se recusou a tratar casos de overdose, só que não era overdose: era AVC, e fui largada à própria sorte, ou melhor dizendo, à própria morte. Só estou viva porque a minha amiga não acreditou no diagnóstico e com a ajuda no porteiro do prédio me colocou no carro e me levou ao hospital, onde fui corretamente diagnosticada e encaminhada para minha primeira cirurgia, com doze por cento de chance de sobreviver.

Giovanna, que assim como eu é de Curitiba, também passou por um perrengue até chegar ao hospital. O acidente dela foi durante uma aula em seu primeiro período da faculdade, aos 18 anos, e como ninguém sabia o que estava acontecendo, foi levada até a enfermaria, onde lhe deram uma bala para remediar uma possível queda de pressão. Com as convulsões, o pessoal percebeu que poderia ser algo grave e a encaminharam ao hospital, onde nossa heroína enfrentou o segundo grande obstáculo na nossa luta pela sobrevivência: a descrença na triagem da emergência. Assim como eu, foi diagnosticada com overdose, e quando interrogada sobre qual tipo de droga ela tinha usado, percebeu que, também, estava sem voz: foi salva por uma médica neurologista que estava passando pelo pronto-socorro, que ao se deparar com a confusão, conseguiu entender que a adolescente estava tendo um AVC gravíssimo.

Nossos casos não são exceções: Micheline Cruz (Recife-PE) demorou dias para ser diagnosticada com AVC; até então estava sendo tratada com Rivotril por ser pré-diagnosticada com transtorno de ansiedade, mesmo chegando ao hospital vomitando e já na cadeira de rodas. Lísia Daniella (Palmas-TO) também: a equipe médica apenas questionou que poderia ter sofrido um derrame aos trinta anos de idade quando já estava afásica e tetraplégica.

Pré-diagnósticos falsos também são comuns e aqui o preconceito também faz o seu protagonismo: mulheres muitas vezes são tratadas como manhosas e estressadas, enquanto homens, geralmente negros, são vistos como mentirosos. Esse tempo em que duvidam de nossos sintomas poderia ser mais bem aproveitado se estivéssemos passando pelos principais exames importantes, como tomografia de crânio, eletrocardiograma e doppler de carótida, que são capazes de diagnosticar o AVC e outros problemas vasculares. Isso em todo o país. Mas por que que isso acontece dentro dos hospitais? A resposta é simples e cruel: o sistema de triagem tem protocolo quantitativo, ou seja: baseia-se nos casos mais comuns de acordo com as características do paciente. Como AVC acontece mais em pessoas idosas, nós jovens, temos que apresentar mais sintomas para sermos corretamente diagnosticados, só que pagamos caro por isso, já que quanto mais tempo sem ajuda, mais sequelas ou morte. Luana Alencar (Aracaju- SE) que o diga, pois se tivesse sido tratada rapidamente com um medicamento chamado Alteplase, que dissolve os coágulos sanguíneos, ela estaria sem sequelas hoje, mas como teve demora em seu atendimento, aos 27 anos luta contra a espasticidade em sessões de fisioterapia. Micheline também poderia ter ficado sem sequelas se tivesse utilizado este medicamento, ao invés disso, teve alta e foi mandada para casa sem receber nenhum tratamento efetivo.

Todos esses obstáculos podem ser amenizados por meio de ações comunicacionais: se a população em geral tiver consciência que AVC também acontece com pessoas jovens e conseguir identificar os principais sintomas, podem fazer como o namorado da mineira Camila (do início do texto) e levar a vítima diretamente ao hospital, sem delongas. E assim, por meio de uma pressão popular, podemos lutar para que o AVC em pessoas jovens possa ser levado em conta na triagem de pacientes nos prontos-socorros brasileiros, porque, por mais que não seja tão comum na nossa faixa etária, para nós, que o sofremos, ele é arrasador e pode sim, destruir a nossa vida.

Então, aproveitando o espaço que me é dado aqui no Plural, finalizo este texto descrevendo os principais sinais do AVC: sorriso torto, dificuldade de falar ou de compreender, dormência ou descontrole de um lado do corpo ou uma forte dor de cabeça. Se alguém ao seu lado apresentar esses sintomas, leve-o imediatamente ao hospital. Cada minuto conta! Faço isso em nome de todos os avcistas que não conseguem mais falar ou que infelizmente não conseguiram sobreviver a essa roleta russa neural que é o Acidente Vascular Cerebral.

· Este texto contém um pouco das histórias de mulheres que assim como eu sofreram AVC ainda jovens. Elas gentilmente me autorizaram a divulgação desse momento tão doloroso, bem como os seus nomes.

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