Como ajudar um avecista

Infelizmente um AVC pode acontecer com qualquer um em qualquer idade, aconteceu comigo quando eu tinha 34 anos e na época quase ninguém sabia como lidar comigo, nem eu mesma. Então, baseada na minha experiência, e de outros amigos avecistas, tentei listar alguns itens de como lidar conosco, principalmente nos primeiros dias após a saída do hospital.

1 – A alta do hospital não significa que estamos cem por cento.

Muita gente confunde isso e acha que o sobrevivente está ótimo, pronto para jogar bola ou ir num show de rock. Não, na verdade ele foi liberado pelo hospital porque já não corre muito risco de vida, mas a rotina dele é a mesma, comida regrada, banhos, horários de remédios... E a partir de então vem a pior parte: ele terá que lidar com as sequelas. Porque no hospital é fácil, sempre tem um técnico de enfermagem ajudando a gente, agora em casa que a gente percebe como o dia a dia será difícil daqui para frente.

2 - Pesquise na internet o tipo de AVC que tivemos e os procedimentos pelos quais passamos.

Todo mundo sabe que o Google é o novo “pai dos burros” da atualidade, e que nem sempre ele nos informa tudo corretamente. Porém, mesmo assim é importante você pesquisar o que aconteceu com quem você irá visitar. Que tipo de AVC ele teve? Isquêmico, transitório, hemorrágico? Por quais procedimentos ele passou no hospital? Traqueostomia? Craniectomia? Procedimentos como esses são bem impactantes, é melhor você se preparar para isso antes de encontrá-lo.

3 –Em muitos casos, saímos do hospital usando fraldas.

Ninguém gosta de usar fraldas depois de adulto, mas muitos AVCs prejudicam nosso controle da bexiga ou do esfíncter e precisaremos usar fraldas por um tempo. Na verdade, no tempo que for preciso. É uma situação bem constrangedora, então é preciso ter muita delicadeza ao lidar com isso.

4 – O cérebro demora para se recuperar.

O cérebro é um órgão maravilhoso, capaz de promover a neuroplasticidade, que é quando um neurônio cumpre a função daquele que foi deteriorado. Mas isso acontece devagar, com muita ajuda fonológica e fisioterápica. Uma lesão cerebral demora meses e até anos para se recuperar.

5 – Escute.

O sobrevivente passou por uma experiência traumática e, se ele conseguir falar a respeito, apenas escute, sem julgar. Isso é uma forma de ele assimilar o que aconteceu e dissipar a sua confusão mental.

6 –Nos ajude com as novas tecnologias

Depois de um AVC muitos de nós temos muita confusão mental, sobretudo com internet, smartphones, aplicativos, modem. Por isso é importante você ensinar ao sobrevivente como lidar com essas tecnologias, com paciência e detalhes.

7 – Penteie o nosso cabelo.

Muitas vezes depois de um AVC perdemos a função motora de um lado do corpo, então temos dificuldades básicas, como: pentear os cabelos, cortar as unhas, colocar o lençol de elástico nos nossos colchões, dobrar nossas roupas...Todas essas “ajudinhas” nos ajudam muito.

8 – Nos mostre fotos e nos lembre de bons momentos.

Em alguns casos, o AVC nos afeta a memória, por isso é interessante mostrar as fotos de momentos felizes, também é bom relembrá-los para nos mostrar o quanto é importante lutarmos por nossas vidas.

9 – Precisamos de silêncio

Por mais que uma festa ou uma bagunça seja boa, ficamos confusos em ambientes barulhentos. Além disso, nosso cérebro precisa de silêncio para se recuperar.

10 – Nos ajude a cuidar de nossos pets.

Nossos pets se tornam nossos maiores enfermeiros depois de retornarmos para casa. E eles ficam carentes e estressados, porque sentem que não estamos bem e não temos força para brincar e acariciá-los. Então, faça isso por nós. Levem eles para passear ou lhes deem atenção. Ficaremos muito gratos por isso.

11 - Nos traga alimentos saudáveis, como frutas e grãos.

Quase todo avecista pede que lhes tragam doces, porque o seu paladar está danificado pelo derrame (ele demora alguns meses para voltar ao normal). Mesmo assim nos ofereça frutas, legumes e grãos, porque são esses alimentos que contêm nutrientes que ajudam na neuroplasticidade cerebral.

12 – Nos ajudem na organização dos nossos remédios

Quando chegamos em casa o médico nos passa muitos remédios, que ocupam boa parte do nosso dia. Nós precisamos tomar todos eles nas horas corretas. Se puder, nos ajudar nessa organização será muito bom.

13 – Passeiem conosco.

Atividades ao ar livre são ótimos, porque são prazerosos e não têm aglomeração. Visitas á museus ou lugares com acessibilidade às pessoas com deficiências são ótimas propostas.

14 – Por favor, não temos condições de lidar com problemas.

O cérebro pós AVC não consegue lidar com coisas complexas, como problemas financeiros e familiares. Ainda estamos frágeis e vulneráveis, então se puderem nos poupar de problemas graves e complexos nos ajudará muito em nossa recuperação. É importante que todos nós possamos nos focar apenas na nossa recuperação.

15 – Não nos isole.

O AVC vem e a vida de todo mundo continua, menos a nossa. Por um tempo ficamos à deriva, porque nossa vida é mais voltada a nossa recuperação e não nas atividades do dia a dia. Por isso precisamos de seu amor e de sua amizade. Tente nos ligar, visitar, manter contato pois estamos na fase mais difícil de nossa vida e não merecemos ficar isolados.


Por mais que essas dicas sejam importantes é bom frisar que elas são generalizadas. Cada caso é um caso, por isso é sempre bom se comunicar com o avecista e ver o que ele quer e necessita. Ter um AVC é algo muito doloroso, mas não nos tira sentimentos e sensações. Ainda estamos aqui. #AVC #ajuda #empatia #desmiolada #strokesurvivor


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