Capacitismo

Atualizado: 5 de Ago de 2020

Ter um ou mais AVCs é muito difícil. Além do processo interno, das sequelas, da difícil recuperação em si, tenho que lidar com uma sociedade retrógrada que com toda certeza está despreparada para conviver com pessoas com deficiência. Há olhares, deboches e impaciência todos os dias ; ás vezes me tratam como se eu não conseguisse raciocinar direito, como se sozinha atrapalhasse o tráfego de uma calçada inteira apenas pelo meu mancar e me falam coisas que sinceramente não fazem sentido.

Por exemplo: em um dia frio e chuvoso em Curitiba, quando ainda me locomovia com bengala e com muita dificuldade para permanecer ereta fui até a farmácia e solicitei um remédio que não tinha, o atendente falou com alguém no telefone e pediu para eu buscar o remédio em outra sede a “apenas” quatro quadras adiante. Eu respondi: “Moço, eu ando de bengala, quatro quadras são muito para mim, principalmente na chuva.” Naquele tempo eu ainda não estava acostumada em ser invisível. Porque uma pessoa com deficiência é invisível em nossa sociedade, assim como a empatia e a gentileza. No meu caso, especificamente, a deficiência é não aparente, ou seja, as pessoas não veem a parte do meu cérebro danificado, então elas precisam acreditar quando eu digo que tenho hemiparesia, agnosia, apraxia e dor neuropática. E o descrédito é total. Como se eu mentisse ou “aumentasse” as minhas dificuldades para “ganhar" os diretos das pessoas com deficiência. É até absurdo como que de repente o meu caráter começou a ser questionado. E isso não acontece só comigo não, ocorre também com pacientes de esclerose múltipla, pessoas no espectro autista, surdos... Se a pessoa não for totalmente cega ou cadeirante, ela está fingindo, está “exagerando”... Sim, a cabeça das pessoas chega a ser limitada a este ponto. É incrível como nunca passa pela cabeça delas que o meu dia a dia desde o momento em que acordo é mais difícil; que tenho que pensar em me equilibrar antes de sair da cama, que tem dias que sinto uma dor muito forte no ombro esquerdo que só passa com um remédio muito pesado, ou que tenho que pensar três vezes antes de atravessar uma rua porque tenho que lembrar que a minha visão esquerda agora é reduzida. E sabe o que é mais estranho? Essa peculiar mentalidade acredita que em se tratando de PcD, ou é oito ou é oitenta: ou sou uma pessoa com deficiência que não pode sair de casa, que não pode trabalhar ou estudar e devo viver eternamente amparada pelo INSS, ou eu sou uma pessoa “normal”, que posso fazer de tudo e nunca abrir a boca para falar de acessibilidade. O nome dessas atitudes é capacitismo, que é o preconceito com pessoas com deficiência. Aos olhos de um capacitista somos menos, por isso nossas vozes são caladas e nossas necessidades ignoradas. Somos cartas fora do baralho, aquele feijãozinho estranho que precisa ser jogado fora. E se parar para pensar, isso realmente faz sentido em uma sociedade em que as pessoas olham mais para a câmera do celular do que para as suas próprias atitudes. Uma das coisas mais fortes que o AVC me ensinou é como a nossa sociedade regrediu em relação a sua humanidade. Na época de Sócrates e Platão havia uma grande preocupação em ser honrado, em deixar uma história de honra nessa nossa passagem pela vida. A nossa historia seria lembrada por nossas ações. Para onde foi isso? Para onde foi o nosso senso de coletividade? Não sei, não tenho como responder agora (estou pooota) só sei que sigo andando (e mancando) e aprendendo muito sobre essa minha nova vida, e como acredito que honra e coragem nunca saem de moda, pretendo continuar surpreendendo as pessoas com a minha inteligência desmiolada e o meu senso de justiça ácido. Vai que cola?

#AVC #PCD #capacitismo #prontofalei #desmiolada


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