• Camila Silveira

Afrancesada

Atualizado: 11 de Mai de 2020

Entre a primeira e a segunda cirurgia, ou depois da segunda (não sei bem), eu perdi o português.

Pode ter sido por terem mexido na minha cabeça perto da área da linguagem materna, mas hoje acredito que provavelmente isso aconteceu por uma autosabotagem maluca alinhada com o medo da coisa ficar pior. E "jai perdu ma langue materne" no meio dessa loucura. Eu entrei em desespero, e chorei, é claro (naquela UTI eu chorei mais lágrimas do que em toda a minha vida). Depois de chorar e me descabelar com o resto de cabelo que me restou, eu lembrei que a língua estrangeira estava no lado esquerdo do cérebro, numa área que não fora mexida pelos médicos. E então tentei pensar em inglês, francês, alemão, italiano... E o francês pegou. Sabe aquela voz interna, a dos pensamentos? A minha ainda é em francês. Não é um francês fluente, culto, de Baudelaire... Ela está mais para um Jacquin legendado, mas para o meu íntimo funciona. O problema é que aqui no Brasil ninguém entende essa porcaria de língua. Então através dela eu fui reaprendendo "le portugais". Eu tomava café e dizia cada uma das coisas que via em francês e logo depois em português. Depois fui relembrando frases, e assim por diante. Não sei se o pessoal da UTI percebeu isso. Acho que eles só perceberam que eu era estranha e falava muito sozinha. (Mas eu sempre fui assim, meus colegas de "profission" que o digam). Perder a língua materna por um tempo me deixou muito deprimida, porque a nossa identidade, a nossa cultura, está muito ligada a nossa língua de origem. Mas o francês me acolheu. Em casa, durante a recuperação (a fase mais difícil) eu ouvi muita música francesa e assisti inúmeras vezes a série "Plan cœur" da Netflix. A língua me confortava porque nela eu entendia o que estava acontecendo. Eu também mudei a língua do meu celular para o français e até hoje isso me atrapalha na hora de escrever (Vocês não tem ideia de como eu edito esses pequenos fragmentos). Mas por meio dessa experiência o francês se tornou a língua do meu coração. E como "courage" vem de "cœur", foi ela quem esteve comigo nesses dias nublados. Nessa intensa transformação que sofri, me tornei um pouco francesa, um pouco beauvoiriana. Na real, ainda mais, né? #AVC #frances #isquemia #segundalíngua #demiolada

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