• Camila Silveira

A mulher avecista

Uma célebre filósofa chamada Simone de Beauvoir escreveu a frase: “Ninguém nasce mulher, torna-se mulher.” Apesar de enigmática, toda mulher no fundo sabe o que esta frase significa: o mundo é feito para homens, são os filhos mais cobiçados, as crianças mais mimadas e aqueles que provavelmente receberão aquele cargo tão almejado. E apesar de estudarmos e nos esforçarmos cada vez mais, a cultura sempre nos coloca no máximo na segunda posição.

Louise Bourgeois, um dos poucos nomes femininos que chegaram ao topo na história da arte, em um tempo de sua carreira se dedicou a ideia da mulher como lar: o recanto de eterno amor e acolhimento. Dentre suas esculturas consagradas, esculpiu enormes aranhas como o símbolo feminino do tecer da vida, que assim como uma matriarca, entrelaça os fios da intimidade e monta as histórias da família. Em suas obras, Bourgeois enfatiza de alguma forma a figura da mulher, a casa lar que forma cada filha ou filho em seu ventre e os nutre de amor e sangue antes de lhe dar a vida.

Nós, mulheres avecistas, quando nos tornamos avecistas em menos de um segundo (um tempo muito curto para qualquer filosofia) perdemos o nosso bem mais precioso: o corpo. E com a paralisia desse corpo, temos a noção de que toda a nossa existência até então se baseava na função dele. Perdemos a nossa liberdade, a possibilidade do ir e vir; perdemos a nossa intimidade, porque ficamos por um tempo incapazes do autocuidado, que fica a mercê de outras pessoas; perdemos os nossos relacionamentos, tendo em vista que a maioria das mulheres tem seu casamento rompido logo após o acidente vascular cerebral, e até em alguns casos, perdemos a nossa família inteira, devido a nossa impossibilidade física de a cultivarmos. Junto com o AVC, o nosso corpo - a nossa casa lar - desmorona. O nosso corpo, culturalmente colocado como a estrutura da nossa vida de repente falha, e junto com ele, todos os nossos projetos caem por terra.

Porém, assim como nós aprendemos a ser mulher, depois do acidente, por conta de uma força do além ou do destino, nós também aprendemos a nos tornar avecistas. A ficha cai e a gente entende que precisa se recuperar. Precisa mais uma vez superar o insuperável, não acreditar no que mostra a tomografia, nem no que dizem os médicos. Parece uma missão impossível para quem sempre ficou em segundo lugar, ainda mais sem apoio, algo muito comum aos homens, mas sempre negligenciado às mulheres.

Só que esse mundo tão ríspido e masculino, se esquece que nós, mulheres, temos o dom de gerar a vida, não só em nosso ventre, mas no nosso espírito, talvez a única coisa que ficou intacta nesse avassalador acidente cerebral. Talvez este seja o nosso milagre, porque o nosso caminho de recuperação passa pelo caminho interno de geramos a nós mesmas. Porque é preciso muito amor e dedicação. É preciso amor ao corpo machucado mesmo ele estando agora tão longe do aclamado padrão social. É preciso se colocar como protagonista, mesmo o mundo dizendo que este não é o seu lugar. É preciso falar, mesmo sem vocabulário para voltar a ter voz, e é preciso andar sem medo de cair, mesmo com as pernas bambas. Eu, esta que vos escreve, só descobri a verdadeira coragem depois do AVC, porque para enfrentar a morte, meus caros, não se deve ter medo de morrer, nem de perder, nem de arriscar. É preciso confiar em si mesma, na sua luta, na sua história. É preciso ir contra todos os diagnósticos, todas as propagandas e todos os abusos, e se recolher, se gerar e se nutrir para a partir disso se dar a possibilidade de renascer.

Já conheci grandes mulheres nesta vida, mas nenhuma delas tinha a incrível capacidade de se refazer como uma mulher avecista. Se Beauvoir e Bourgeois conhecessem a força de uma mulher avecista com certeza teriam muitas mais histórias para contar. Que sorte a minha..

#AVC #sororidade #empoderamento #juntassomosmaisfortes #desmiolada

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