• Camila Silveira

A grande guerra

Estava frio em Curitiba, e isso não é novidade porque aqui é sempre frio, e pedi para um grande amigo me levar ao Museu do Expedicionário porque pela primeira vez na minha vida adulta não tinha a independência para fazer o que queria: tinha sofrido dois AVCs dois meses antes e estava com muita dificuldade em me locomover. Fazia fisioterapia três vezes por semana, andava de bengala, e tudo era muito difícil. Tinha dificuldade em ler e escrever, não conseguia me localizar no tempo e espaço e não sentia a parte esquerda do meu corpo (para você ter a uma ideia: nem a parte interna da bochecha), não conseguia me vestir sozinha, nem tomar banho, nem nada. Sem dúvida foi a época mais triste da minha vida e queria muito ir ao Museu dos pracinhas (nome dado aos soldados brasileiros que lutaram na Segunda Guerra), não para ver os uniformes e a artilharia, mas para buscar coragem para viver aquilo tudo. Eu tinha uma ideia muito maluca de que ao visitar o Museu, eu me depararia com alguma mensagem de meu avô, que tinha sido pracinha; e que se o aneurisma que estourou na minha cabeça era genético, a coragem também poderia ser.

Essa era a lógica na minha cabeça pós-AVCs e para mim valia a pena o esforço. Devo salientar que nunca cheguei a conhecer meu avô paterno, sou uma das netas mais novas dele, sendo que quando nasci ele já tinha feito a sua passagem. O que tenho dele são as memórias que me contam (de um vô legal que dava balinhas de adoçante numa viagem de trem) e do que ele escreveu em seu diário de guerra, talvez por isso eu seja tão fascinada por esta história dele ter sido pracinha, porque o conheci lendo o seu diário, quando eu tinha a mesma idade em que ele o escreveu: 19 anos. Sim, ele foi mandado para a guerra aos 19 anos e voltou com 21. Era datilógrafo, gostava de escrever assim como eu e minha irmã, e talvez por isso não tenha ido para a frente de batalha. Era apaixonado por uma menina chamada Jurema, a quem escrevia muitas cartas nesse tempo em que foi mandado para a Itália. Não gostou da viagem do navio, mas se entusiasmou com a animação dos jovens soldados em enfrentar Hitler e acabar com a guerra. Fez musiquinhas e piadinhas como muitos, mas chegando lá as coisas foram bem diferentes. O frio era intenso e o uniforme brasileiro de flanela não dava conta do recado: tiveram que emprestar os uniformes dos americanos. Os meninos (para mim ainda são meninos) tentaram se enturmar como podiam, mas tudo era muito difícil, a língua era outra, a comida não era das melhores e os sacos de dormir não esquentavam na neve. Ao acordar encharcado em gelo, meu avô teve a ideia de roubar um caixote, forrá-lo e dormir nele, substituindo o saco de dormir. Deu certo, e apesar de ser apelidado de vampiro, ele ficou feliz em dormir quentinho. Depois, a situação foi piorando, vieram as baixas, as injustiças e as tão esperadas férias (sim, soldados tinham férias, eu também não sabia) e ele foi para a Roma. Já não era mais um menino que escrevia aquilo, era um homem desolado. Roma estava estilhaçada e a fome arrasava as famílias. Todos recebiam bem os soldados porque hospedar um deles era garantia de sopa menos rala por alguns dias. Aquela situação tocou profundamente o rapaz que me deu seus genes; ele se preocupou com cada uma daquelas pessoas, o futuro delas lhe preocupava. E então meu avô voltou para a guerra, contribuiu com os seus textos para repassar as informações necessárias e retornou vivo ao Brasil, mas sem se sentir vitorioso; assim como eu saí do hospital viva, mas me sentindo literalmente pela metade. Pode parecer arrogante, mas os meus dois AVCs foram duas grandes guerras para mim. Até fisicamente eu parecia ter voltado de uma, tinha duas cicatrizes na cabeça e as pernas tão esqueléticas que se arqueavam quando me levantavam. Realmente não estava nos meus melhores dias. Precisava de ajuda para me alimentar, para ir ao banheiro, para me lembrar do dia e de onde estava. Quando eu voltei toda aquela minha vida que eu tinha levado anos para construir havia sido despedaçada. Os amigos já haviam se adaptado a uma vida sem mim enquanto eu estava no hospital, assim como a Jurema cansou de esperar o belo rapaz de olhos pequenos e arranjou outro namorado. Só que apesar do meu avô não se sentir vitorioso quando voltou ao Brasil, ele era vitorioso, assim como eu era vitoriosa ao sair do hospital, mesmo sem saber. Porque o que eu mais queria era voltar no tempo e evitar o acidente, e isso é impossível, ninguém pode voltar no tempo, ninguém pode evitar uma guerra que já começou. Também fiquei traumatizada com as sequelas, também pudera, elas são feridas terríveis, assim como são as feridas de guerra. Ah, e o trauma emocional ainda é bem grande: várias noites acordando aos prantos. Não é nada fácil. Fazendo essa analogia eu passei a me ver e a ver meus colegas avecistas como sobreviventes de guerra, (só nos falta a medalha!). Se bem que a maior dádiva do meu avô nessa história não foi ter ganhado uma menção honrosa, mas foi de ter sobrevivido e continuar vivendo. Tempos depois ele conheceu a minha avó e a nossa família foi construída, teve um outro tipo de emprego e passou a fazer um trabalho voluntário em prol de estrangeiros. A guerra, apesar de desumana, o tornou mais humanitário. Ele mudou, viveu e se recuperou como pôde. É por isso que acredito na minha recuperação e na de pessoas que passaram por grandes perrengues (sendo elas avecistas ou não) porque a neuroplasticidade não acontece só no cérebro, mas na nossa vida em geral. E como em uma guerra, às vezes as coisas parecem estar tão travadas no nosso dia a dia, que a gente não sente que a estamos superando, mas estamos. Por isso é importante não desistir. Além disso, a vida do meu avô não foi a guerra, ele passou pela guerra, assim como eu passei pelo AVC. Toda experiência traumática pode nos construir ou destruir como ser humano, e a escolha é sempre nossa. #AVC #sequela #grandeguerra #inspiracao #licaodevida #desmiolada


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