• Camila Silveira

Coma


Acordo, mas não consigo abrir os olhos. Sei que meus braços estão ao lado do meu corpo e como gosto de manter eles cruzados, tento ajeitá-los mas não consigo movê-los.

Felizmente não é a primeira vez que isso acontece. Então já tenho consciência de que estou no hospital e que não consigo me mover por causa de um "transe" a base de remédios. E já sei como sair disso. Preciso descansar, dormir, entrar em um ou dois delírios e acordar mais forte. A medida que eu vou "acordando" os sentidos vão sendo recuperados. Mas no início, só tenho a audição. Ouço muito bem e com isso procuro encaixar o quebra cabeça do que está acontecendo a minha volta. Sinto pavor, tristeza, mas não consigo chorar porque os olhos estão imóveis. Raramente alguém de branco os abre e passa uma luz forte, depois ele é fechado. Tudo volta a ficar escuro. Os enfermeiros estão trabalhando, ouço passos, respirações, conversas casuais de plantão, de vida. Acho que eles não tem ideia de que eu os escuto. Falam de futebol, do tempo, do meu estado, dos estudos, sonhos, vida. Tento prestar atenção nessas conversas, mas geralmente estou cansada e volto a "dormir". Às vezes para me acalmar penso na Elke, minha gatinha, com várias mini perucas na cabeça e em como posso fazer cada uma dessas perucas quando estiver em casa. O pessoal da UTI me chama de "guerreira". No começo me sentia motivada, mas depois percebi que todos os pacientes são chamados assim e me senti traída pela falta de exclusividade. Teve uma vez que uma mulher, possivelmente técnica ou enfermeira, me olhou ao pé da cama e soltou um "tadinha!!" Eu sabia que era uma mulher por causa do cheiro dela. Na UTI não pode ter perfume, mas as pessoas tem o cheiro delas e eu já posso sentir isso porque o olfato está voltando. A menina tem cheiro doce. Quando o tato começou a voltar, senti que às vezes recebia um carinho na cabeça, de leve, na altura das cicatrizes. Um dos homens também conversou comigo uma vez. Ele falou que eu iria ficar bem, que todo mundo dali torcia por mim, coisas desse tipo. Eu gostaria que ele me avisasse que os sonhos ruins são delírios, por isso são tão reais. Quando começo a ter força tento cruzar os braços. Da última vez um deles não mexeu. Então coloquei o braço direito em cima da minha barriga e voltei a dormir. #desmiolada #AVC #coma #isquemia

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